quinta-feira, 8 de setembro de 2011

* Fúria de amar

Força ~ Ananda Tarot ~ Fonte: Albideuter.de

E de novo e de novo - e mais uma vez. Se havia uma palavra para definir o meu sentimento, eu diria que estava farto. Era aquela gritaria, que se silenciava ao menor anúncio, por expectativa do público. O chamado "respeitável".

Eram incessantes ao ponto de serem ridículas aquelas cenas todas, dia após dia de apresentação, eram gargalhadas e risos de um palhaço, que por trás das cortinas, estava mais para pierrot.

O mundo, eu enxergava como por trás das grades. Um grande picadeiro e uma grande jaula. Favoritos do público, ansioso pela minha apresentação. Mas as grades tinham seu aspecto mágico. Enquanto existiam, eram a garantia de que eu estava à salvo daquelas pessoas. De que elas não me tocariam, poderiam se aproximar e ver, mas eu mantinha o meu glamour intocável, podendo olhá-las à distância. E elas eram onívoras. Famigeradas por risos descontrolados, provocados por fantochadas. Sim, eram fantoches, só fantoches.

Minha ira só aumentava, por ver os meus não perceberem. Pareciam hipnotizados por continuar com suas apresentações esdrúxulas. Com suas bandas e suas músicas. Com maquiagens, enfeites no rosto e cabelos. Com seus contorcionismos que, com certeza, não tornavam suas carnes mais macias.

Nesses momentos de descontrole, meu desejo era apenas por carne. Sim, estava sanguinolento demais. E a cada dia alimentava o desejo intenso de atacá-las, uma a uma. Ver pais correndo desesperados, tentando salvar as crianças das minhas mandíbulas. Mas jamais lhes faria qualquer mal, afinal, tudo o que eu queria era assustá-las, para poder demonstrar o quanto suas presenças ali, por uns trocados, denegriam o meu orgulho e maculavam minha honra.

Chegou o tempo e ouço o chamado. Era minha vez, minha grande entrada, a mais aguardada da noite. Lá viria um homem com uma roupa ridícula e um chapéu obtuso pensando ser capaz de não sucumbir a minha força. Para que eu pudesse dar saltos programados, passos ensaiados e ouvir gritos estupefatos de um público questionável.

Mas foi de repente que tudo ficou em silêncio. A música que começou a tocar era diferente. E o que vejo, surpreendido, ao tilintar daquele grande cadeado: Abrem-se as grades e adentra ao meu espaço a mais doce de todas as criaturas. Ela, uma jovem bailarina, com um encanto e tranquilidade além do comum, se aproxima, despojada de todo o medo, mesmo com meu olhar ferino e agressivo. Passo a passo chega em sua dança até estar à minha frente. Eu posso estraçalhá-la. Eu posso dar fim dela. Ela está ali, ao meu alcance, plenamente sob o meu poder.

E eis que o mais suave dos toques levemente encosta em minha juba. Alisa-me gentilmente e me paralisa por completo, enquanto a mão dela desce em direção a minha face. E eu sinto o toque do amor. E eu vejo o amor em seus olhos. E minhas pernas tremem, perdendo sua força. E meu coração, palpitando, se enche da mais plena graça. Ela ali, frágil e bela, desarmava-me com sua Força, de plena delicadeza, como a suavidade de uma pluma. E eu, entregue, rendido e seguro pelo toque do amor.

Raiva de amar, ira de amar, fúria de amar! Sufocaste em mim o extremo rugido, óh amor! Da fera que sou, sobrou apenas em mim um leão, ali, domado. E o público, então, se extasiou em aplausos. Era alegria...

"Alegría" ~ Cirque du Soleil ~ 1995 ~ Composição: Robbi Finkel e René Dupéré.

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2 comentários:

Senhor da Vida disse...

Bravo! Primeira vez que leio algo como a fera no plano principal, perfeito! Muito bom poder pensar sob todos os angulos!

Adash Van Teufel disse...

Obrigado, Flávio! Bom sim poder repensar o tarô!

Abraços!