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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

* Encontrando a certeza

O Pendurado ~ Golden(es) Botticelli Tarot ~ Fonte: Albideuter.de

De repente abri meus olhos. Meu corpo estava tão dormente que parecia anestesiado. O que me fazia pensar por quanto tempo estava daquele jeito, naquela mesma posição. Tentei me mover sem forçar e percebi que não conseguia mexer um só músculo, totalmente exaurido de energia, totalmente cansado pela dor. A dor percorrera da cabeça aos pés, parecia sentí-la até nos fios de cabelo esticados pela gravidade em direção ao solo.

Sem conseguir me mover, olhei para cima - e tudo o que vi foi o gramado verde onde se sustentavam dois troncos. Ambos desciam em direção aos céus, sendo unido em seu cimo-raiz por mais um. E era neste, fatídico, onde uma corda me suspendia. Eu estava pendurado pelo pé. Há tanto tempo que já não sabia sequer mais como executar qualquer movimento.

Perdi a referência do que era acima e do que era abaixo. E dizem que todo o cristão verdadeiro anseia pelo céu. Meu céu, ali, totalmente gramado, fazia sentir-me o pior dos pecadores, pois alcançá-lo era o desejo impuro de apenas poder voltar ao solo.

Por um momento, pensei que o sangue pressionado em minhas veias descendo em direção à cabeça estava me fazendo ter alucinações. Estar ali, vendo tudo de cabeça para baixo, me desorientava. Nem quando criança, a brincar, plantando bananeiras contra o solo, em meio à brincadeiras com amigos, sentia toda aquela agonia. Não imaginei que o que era uma diversão pueril poderia virar castigo de adulto. Um castigo que, ali sofrendo, não desejava a ninguém mais.

O dia, ensolarado, estava tomado por uma brisa refrescante, daquelas românticas de final de tarde, que esvoaçam cabelos no encontro de amantes e compunham um cenário perfeito, salvo o fato que, ao tocar minha pele dolorida, era como se milhares de alfinetes me encostassem ao mesmo tempo. O que só piorava, ao invés de me dar algum alívio.

Se desgraça pouca era bobagem, minha mente percebeu-se de repente invadida por sons. Pessoas passavam e gargalhavam da situação. Riam de mim, riam daquela humilhação pública. Pois, afinal de contas, todos sabiam. Um homem pendurado em público era acusado de algum delito qualquer, não importava se fosse culpado ou não. Inútil nesse instante era bradar por inocência, pois para todos, ali estava alguém a quem culpavam por sentirem-se eles mesmos injustiçados pela vida. Ou seja, o homem pendurado, quer quisesse ou não, era tido como o traidor, o grande vilão.

O vento começou a fortalecer e levemente me balançar. O vai-e-vem do meu corpo suspenso começou a me deixar tonto. O contato da corda com o tronco fazia a madeira ranger. Àquela altura, o som era agoniante. E a tristeza tomou conta de mim, pois nada mais podia fazer. Sem resistir, deixei o pranto rolar e quando as lágrimas cessaram, fui invadido por um torpor interno. Nada mais poderia ali fazer, pois já não dependia de mim sair daquela situação.

No fundo, sabia que não era culpado. Mas estava ali, pagando o alto preço. Então, sem pestanejar, senti meu coração. Ele não parara de bater. Eu ainda estava vivo e o sangue prosseguia fluindo em minhas veias, como a água represada que não cessaria de molhar a mão que fosse tocá-la. Então, num súbito acesso de fé, concentrei-me nas batidas e apenas pedi o que minha boca teve tanta dificuldade em ali pronunciar: "Misericórdia". Misericórdia de mim, pois sou inocente.

O Pendurado ~ Golden Dawn Tarot ~ Fonte: Albideuter.de

Subitamente, as gargalhadas cessam, junto com a dor. A cena se transfigura e o chão gramado, acima de meus olhos, transforma-se em um grande mar. Não sem me causar espanto. E então percebo estar suspenso entre rochas, acima das águas ondulantes. Meus ouvidos, agora intoxicados pelo som do mar, ouvem a voz, que mais parece um sussurro:

- Por que deixaste o orgulho causar-te tanta dor? Robusteces o peito e infla-o com um ar de soberba, com qual finalidade? Pois cada passo que tu dás não te libertas da fera anterior que antes domei com o toque do amor? Por acaso não terá sido eu a te dar alegria?

Reconheci aquela voz, vinda dela, atrás de mim. E entendi. Estava dormindo novamente, sonhando com aquele enredo, que antes parecia tão real. Era ela, a mesma bailarina que me domou, quando sonhei estar no circo. Sua voz era de tamanha delicadeza que parecia música aos ouvidos e tão suave como o toque que, no outro sonho, tocara minha juba.

Princesa de Copas ~ Via Tarot ~ Fonte: Albideuter.de

Então ela deu passos em minha frente, como que flutuando sobre as águas. Percebi seus pés delicados, seu vestido brilhante de pura luz e, em sua mão, uma taça. Sua expressão era tão juvenil e inocente, que mais parecia uma menina a uma mulher. Olhando-a, com dificuldade, pude lhe dizer:

- Quem é você?

- Sou aquela que habita teus mundos internos. Sou aquela que está no início e te conduz ao fim. Meu nome é, em teu vocabulário, Alma. Meu dever, para contigo, é mostrar-te tuas próprias falhas, para que tu mesmo possas corrigí-las.

- E por que estar agora, aqui, expiando aquilo que parece ser os meus pecados?

- Porque anseio pelo momento em que tu entregarás tuas próprias defesas. Eu vim na manhã, nas lâminas do teu tarô, pedindo-te tudo. Nada mais deve restar aqui, em teu mundo interior. A isto chamo recomeçar. E tu pediste a misericórdia, agora. Se estiveres disposto ao recomeço, levo-te à libertação. Renda-te, não há outra saída.

Acenei afirmativamente, com a cabeça. Seu vestido de luz se escureceu. Seus delicados pés tornaram-se esqueléticos e sua taça tornou-se uma foice, segura por mãos de ossos, sem pele ou carne. E tão rápido quanto a foice cortou a corda que me suspendia, caí no mar, em um mergulho vertical. A água foi como um bálsamo de alívio e cura. Foi como puro amor, o colo de uma mãe, uma canção de ninar, que apenas me convidou a adormecer. Não sem despertar, de sobressalto, com o apito do trem, chegando na estação onde eu deveria descer.

O trem parou. Guardei a carta do Louco que ainda segurava em minha mão. Peguei a mochila e levantei, indo em direção à porta. As coisas agora pareciam fazer sentido. Um sentido inexplicável e diferente. Eu fui sim ao encontro do amor. Mas ela me encontrou primeiro, me trazendo o amor. A Alma. E agora, sabia que poderia descer seguro, pois meu coração estava cheio de certeza. Certeza acompanhada pela voz, em minha mente, lembrando Gerd Ziegler e o Espelho da Alma:

"Os quatro querubins sopram o espírito que tudo penetra em todas as quatro direções. Vê, tudo é novo!"

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ZIEGLER, Gerd. Tarô espelho da alma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993, p. 72.

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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

* Era a hora. Mas de renascer.

Morte ~ Medieval Scapini Tarot ~ Fonte: Albideuter.de

De repente, acordei de sobressalto. Havia sido tão intensa a percepção daquela carta na mesa, na noite anterior, aquele Ás que pedia um recomeço, reacender a chama, que acabei por dormir sobre elas. A janela aberta durante a noite toda teve sua vantagem. O cheiro do velho havia desaparecido e permanecido somente o aroma de incenso.

Era madrugada ainda, tingida pelas primeiras cores do amanhecer no horizonte. Olhei as montanhas ao fundo, através da janela, lá longe. E vi que em minutos o sol se levantaria. Tudo estava recomeçando, como se o que acontecera, até então, houvesse morrido. Sem levantar da cadeira aonde adormeci, mais do que depressa retirei uma carta do leque espalhado. E o tarô não mentiu: Ela, a funesta inominada, saiu daquele maço.

Morte. Na casa do passado. "Eu vim buscar aquilo que é meu", parecia dizer, erguendo sua foice com mãos esqueléticas. "E não vai sobrar nada que não tenha que sobrar". Não tive como não me assombrar. Eu sabia muito bem o que ela queria. As memórias. Aquelas cabeças cortadas sob seus pés, reis e pessoas comuns que pediram por sua misericórdia, mas não tiveram. A foice havia cantado num golpe só. Um golpe rápido e fatal. Mas nem por isso indolor.

O contexto estava claro. Era a memória de tantos anseios não realizados, tantas vontades diferentes, onde minha própria cabeça teceu ideias de grandeza ou ideias vulgares. Vi meu rosto refletido em cada uma daquelas cabeças espalhadas, como se fossem flores que enfeitam um jardim, para a Morte. Todos aqueles anseios foi a razão pela qual envelheci. A cabeça não mais suportava tanto peso das memórias. E então entendi o porquê das minhas costas doerem.

À Morte, o que é da Morte. O que lhe pertence. Mas seriam somente as ideias, que ela queria? Então abri a carta do presente. Concentrei, retirei do maço. E surpreso fiquei com a confirmação, do agora, desse exato momento, ali. Ás de Espadas. As ideias coroadas. Objetivos, propósitos, certezas e direcionamentos. A Morte veio buscar o pacote completo. Não me deixaria ficar com nada. Aquele Ás, ali, cantou em meus ouvidos como a foice cantava na carta anterior. E não me restaria mais nada, soube disso ali. Deveria entregar tudo. Por um momento, vislumbrei. E agora, futuro incerto, sem nada daquilo que eu já havia há tanto definido em mim? Fechei os olhos, pois temi a dor. Temi que persistisse a dor e o luto.

Ás de Espadas ~ Crowley-Harris Thoth Tarot ~ Fonte: Albideuter.de

Olhava para o Ás. Se deveria entregar tudo, o que restaria de mim? Afinal, foram as ideias que adquiri durante o tempo que delinearam quem eu era. Defini a mim mesmo pelas atitudes que tomei. A forma como conduzi tudo. Sempre tentando fazer o meu melhor, em cada momento. Mesmo que por muitas vezes nada havia dado certo. Mas a certeza de quem eu era estava clara. Clara como aquele Ás de Espadas. Será que deveria brigar com a Morte e levar comigo o que eu tinha certeza que me pertencia? Meu eu, minha referência? Minhas mãos começaram a tremer. Eu devia ver o futuro. O futuro que tanto fugi em tempos passados. Mas que esclareceria o rumo que estava se expressando naquelas cartas.

Respirei fundo. Nova concentração. Retirei a carta do maço. Estendi sobre a mesa, sem a abrir. Precisava respirar um pouco mais. Inspira, expira. Coragem, onde está você? "Abra-a, Adash" - ouvia a mente gritar - "Abra-a"! Inspira, expira. E nada da coragem chegar. Fazia uma enorme força para descobrí-la em mim. Precisava ousar abrir aquela última carta. Levantei a mão e fui guiando-a, trêmula, até a carta. Pousei minha mão sobre ela. Ergui, delicadamente, sem virá-la. Mas a soltei. Não conseguia. O momento estava forte demais. Frustrei-me por não conseguir ser livre o suficiente e olhar a resposta.

Se a Morte quer o que pertence a ela, então a vida deve saber o que faz. Pois ali, sentado, eu senti. Um calor delicado tocou meu rosto. E como ser abraçado pela vida e pela esperança após um longo inverno, após um luto infindável - ou uma morte em vida? - fui tocado pelos primeiros raios de sol, que estava se levantando no horizonte. Ele vinha aquecer minha face e tocar minha alma, após uma longa noite naquele velho estúdio que agora já se renovava.

Olhei para fora, um dia lindo estava surgindo. O ar matinal era incrível. Um alento que parecia curar todas as dores, aromático com o perfume das flores. Encorajador, convidativo e inspirador. Levantei-me, finalmente. Olhei pela janela, aquela visão magnífica da vida e do mundo. Tomei-me pelo impulso e corri, ouvindo finalmente o som do despertar. Um despertar que tanto queria sentir.

Peguei uma mochila. Coloquei dentro um caderno de sketches. Alguns lápis de cor, uma caixa de incenso, isqueiro, cigarros. E seria o maior traidor do mundo se deixasse elas ali. Reuni o tarô de volta em um maço, enrolei em seu pano acolhedor. Mas deixei de fora, sem abrir, aquela carta reveladora. Guardei-o na mochila, levando a carta retirada comigo no bolso do meu casaco, sem vê-la.

Saí porta do estúdio à fora. Respirei profundamente o ar perfumado, os raios de sol, a vida florescente e os pontinhos brincalhões, de prana, que faiscavam o azul do céu. À beira da escada, Aleph latiu. Meu cãozinho, abanando o rabo, parecia abençoar minha nova ideia. Então corri, desci até a estação, com um sorriso satisfeito. Paguei a passagem, entrei no trem. E o apito que me despertou, minutos atrás, soou de novo anunciando a partida. Uma viagem, curtinha, mas em busca de inspiração.

À mente, me veio J.G de Araújo Jorge. Eu sabia o que buscava. Eu sabia o que queria. Como o título do poema, "Um Novo Amor". Recitado, como em um sarau, os versos me tomaram por completo:

"é como se abrisses os olhos para a vida
naquele instante,
como se para trás nada tivesse havido...
Nasces com um novo amor! E viverás de novo
o mistério deslumbrante
do que há de acontecer, como se nunca tivesse
acontecido..."

E o trem partiu. Agora era o meu momento. Retirei aquela carta do bolso e a olhei, profundamente, compreendendo tudo. Não sem um sorriso no rosto. Não sem me ver, ali, estampado. Não sem encontrar o som no interno que preenchia todo o vazio. Lá estava ele. Profundo, inspirado, entregue ao que quer que pudesse acontecer. Lá estava ele e nós estávamos juntos. E só senti uma imensa gratidão - por tudo. Pois havia sido abençoado por sua presença, ali, em meu jogo. O espírito da primavera. Ninguém e nada, ou menos que O Louco!

O Louco ~ Tarot Classic ~ Gassmann - Fonte: Albideuter.de

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domingo, 11 de setembro de 2011

* Arte

Arte ~ Crowley-Harris Thoth Tarot ~ Fonte: Albideuter.de

Somos o fogo e água.
Somos opostos, sombra um do outro.
Mas nossos olhares se reconhecem.
E nosso desejo nos leva ao descontrole.
O fogo quer ebulir.
A água quer apagar.
Ambos são como a droga, um para o outro.
Vício. Virtude. Pecado. Aniquilação. Intensidade.
Mentira. Verdade. Medo. Coragem.
Ver. Ouvir. Tocar. Sentir.
E Harris, brilhantemente, os mistura.
Numa mistura em que suas naturezas se fundem.
Deixa de lado a Justiça, a Fortaleza, a Prudência e a Temperança.
E a chama de...

Arte.

* Nem gatos miando na canção noturna. Nem o som de um violino imaginário... Mas ambos em duas vozes plasmadas, uníssonas.

E, da amiga Caroline Jamhour, a pérola: "Aprenda esse fundamento da magia: da água pode vir o fogo, como da noite vem o dia".

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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

* Fúria de amar

Força ~ Ananda Tarot ~ Fonte: Albideuter.de

E de novo e de novo - e mais uma vez. Se havia uma palavra para definir o meu sentimento, eu diria que estava farto. Era aquela gritaria, que se silenciava ao menor anúncio, por expectativa do público. O chamado "respeitável".

Eram incessantes ao ponto de serem ridículas aquelas cenas todas, dia após dia de apresentação, eram gargalhadas e risos de um palhaço, que por trás das cortinas, estava mais para pierrot.

O mundo, eu enxergava como por trás das grades. Um grande picadeiro e uma grande jaula. Favoritos do público, ansioso pela minha apresentação. Mas as grades tinham seu aspecto mágico. Enquanto existiam, eram a garantia de que eu estava à salvo daquelas pessoas. De que elas não me tocariam, poderiam se aproximar e ver, mas eu mantinha o meu glamour intocável, podendo olhá-las à distância. E elas eram onívoras. Famigeradas por risos descontrolados, provocados por fantochadas. Sim, eram fantoches, só fantoches.

Minha ira só aumentava, por ver os meus não perceberem. Pareciam hipnotizados por continuar com suas apresentações esdrúxulas. Com suas bandas e suas músicas. Com maquiagens, enfeites no rosto e cabelos. Com seus contorcionismos que, com certeza, não tornavam suas carnes mais macias.

Nesses momentos de descontrole, meu desejo era apenas por carne. Sim, estava sanguinolento demais. E a cada dia alimentava o desejo intenso de atacá-las, uma a uma. Ver pais correndo desesperados, tentando salvar as crianças das minhas mandíbulas. Mas jamais lhes faria qualquer mal, afinal, tudo o que eu queria era assustá-las, para poder demonstrar o quanto suas presenças ali, por uns trocados, denegriam o meu orgulho e maculavam minha honra.

Chegou o tempo e ouço o chamado. Era minha vez, minha grande entrada, a mais aguardada da noite. Lá viria um homem com uma roupa ridícula e um chapéu obtuso pensando ser capaz de não sucumbir a minha força. Para que eu pudesse dar saltos programados, passos ensaiados e ouvir gritos estupefatos de um público questionável.

Mas foi de repente que tudo ficou em silêncio. A música que começou a tocar era diferente. E o que vejo, surpreendido, ao tilintar daquele grande cadeado: Abrem-se as grades e adentra ao meu espaço a mais doce de todas as criaturas. Ela, uma jovem bailarina, com um encanto e tranquilidade além do comum, se aproxima, despojada de todo o medo, mesmo com meu olhar ferino e agressivo. Passo a passo chega em sua dança até estar à minha frente. Eu posso estraçalhá-la. Eu posso dar fim dela. Ela está ali, ao meu alcance, plenamente sob o meu poder.

E eis que o mais suave dos toques levemente encosta em minha juba. Alisa-me gentilmente e me paralisa por completo, enquanto a mão dela desce em direção a minha face. E eu sinto o toque do amor. E eu vejo o amor em seus olhos. E minhas pernas tremem, perdendo sua força. E meu coração, palpitando, se enche da mais plena graça. Ela ali, frágil e bela, desarmava-me com sua Força, de plena delicadeza, como a suavidade de uma pluma. E eu, entregue, rendido e seguro pelo toque do amor.

Raiva de amar, ira de amar, fúria de amar! Sufocaste em mim o extremo rugido, óh amor! Da fera que sou, sobrou apenas em mim um leão, ali, domado. E o público, então, se extasiou em aplausos. Era alegria...

"Alegría" ~ Cirque du Soleil ~ 1995 ~ Composição: Robbi Finkel e René Dupéré.

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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

* Levando luz à escuridão

O Eremita - Led Zeppelin - Fonte: Google.com

Risco um palito de fósforo. Após uma pequena explosão de chama descontrolada, o seguro firme e direciono ao pavio da minha lanterna. Ergo-a, encaixando seu arco em um gancho na parede e a luminária estabiliza uma luz suficiente para enxergar o ambiente ao meu redor. É o meu estúdio. E nele, um cavalete empoeirado ainda segura antigos esboços, amarelados e mofados onde a aquarela, há muito tempo ressecada, tentou colorir.

Aos poucos, caminho no breu em direção a uma janela próxima, para que entre um vento e possa renovar o ar. O cheio característico das tintas ainda divide o lugar com outros elementos odoríficos que mais parecem remeter-se a uma casa antiga abandonada onde antes houvera vida. Também existe tabaco queimado impregnado nas paredes manchadas de nicotina e alcatrão, como gotas de suor que escorreram em dias de intensa umidade.

Emperrada, com um pouco de esforço, a janela cede e ergo seu vidro. O suporte de metal já estava enferrujado, mas como uma asa de borboleta tingido de cor. Ainda segura bem a janela erguida e me detenho a abrir a veneziana, que range com sua madeira envelhecida. O vento agora era livre para entrar. E circular, arrastando consigo aqueles cheiros.

E acima de qualquer cheiro, permeia no ar um aroma de incenso. Tantos anos passados desde a última vez em que um fora aceso, mas sua alma parecia ainda habitar o lugar. De repente me lembrei do velho baú próximo àquele pires com o acúmulo das cinzas desses velhos palitos aromáticos. Como tomado por impulso, fui até ele. Abri, tomando seu conteúdo em mãos, para ser de repente afetado por todas as memórias já esquecidas. Delas, que eram as cartas de tarô.

Coincidência - ou não. Retirei-a do pano que as encobria e a carta que figurava sobre o maço era um Eremita. Por um breve instante olhei sua ilustração. E vi o quanto tempo perdi deixando aquela vida para trás. Eu estava velho, é verdade. Mas como o ermitão retratado também era iluminado por minha lanterna.


Quando levei a carta ao foco da lanterna, fui tomado por surpresa. Na minha mente, vi ali o que precisava ter visto. Estava no ato de riscar um fósforo. Que acendeu como o Ás de Paus e o fogo trouxe a luz para ser levado à experiência. Atear o fogo foi como ser tomado de novo pelo impulso da vida. Da minha remota juventude, do espírito aventureiro, da curiosidade original com a qual olhei para as cartas pela primeira vez - e que me levou a querer saber mais sobre elas!

Agora, eu sentia que era isso o que queria. Ser tomado de novo pelo novo. Sentir em minhas veias a pulsação da jovialidade. Ter de volta o mesmo espírito de outrora. Assim, mesmo com os conceitos enferrujados, lançados em algum lugar escuro da minha mente para esquecê-los, corri com elas para a mesa, empurrei pincéis e tubos de tinta empoeirados, para estender o pano e me entregar para aquela magia. Era tudo o que eu queria, ali. Poder ler de novo as cartas, abrí-las para mim. E ver as janelas do destino que deviam ser abertas, para arejar com ventos novos a vida que recomeçava ali.

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domingo, 12 de junho de 2011

* Um passo inicial

Bem-vindo ao Studio Tarot!

Muito obrigado por sua visita. Espero sinceramente que aprecie o material aqui apresentado e que retorne sempre que puder!

Aqui você encontrará minha forma particular de referir-me a este rico mundo do tarô, do autoconhecimento, da cabala e dos florais de Bach. Todos estes conhecimentos juntos, transmitidos através de um toque artístico, onde cada palavra foi medida antes de ser escrita, como uma suave nova pincelada em uma tela que está se compondo.

Cada texto será separado em uma categoria específica, para tornar fácil encontrar postagens semelhantes. Tomo a liberdade de apresentá-las abaixo e você perceberá que o link rápido para encontrá-las está no seu menu à esquerda, em "Catalogando a Obra: Selos."

Inspiração: Expressão da minha arte através da pintura e da escrita.
Definição: Estudos e ensaios sobre autoconhecimento, tarô, florais de Bach e cabala, dentro da individualidade.
Técnica: O Caminho da Alma através da magia da existência.
Rabiscos: Contos e poesias inspirados.
Pinceladas: Diálogos culturais com blogs, apresentação de obras, autores e livros como referência e opinião.
Sombreamento: Percepções de conhecimento esotérico na mídia, música, cinema e arte em geral.
Iluminação: Experiências do cotidiano compartilhadas, cujo foco é o crescimento pessoal.
Retoques: Divulgação geral de encontros, palestras, cursos, eventos e workshops.
Assinatura: Apresentação do meu trabalho profissional enquanto terapeuta e tarotista.